»
Vestigios
"Acho que foi em 2004 que a vovó parou de andar. Simplesmente não conseguia mais, ela nunca foi muito ativa, dessas avós corre-mundo de novela, fazia mais o tipo avó de palavras-cruzadas, rezas católicas, Roberto Carlos e jogos do Internacional no radinho de pilhas. Meu avô era o oposto, estava sempre zanzando, sempre trazendo algo novo da rua, ou o usual hálito etílico da birita dominical com seus cupinchas de bar (quantas vezes ouvi a ordem “o almoço está quase pronto, vá buscar o seu avô!”). Eles não admitiriam – nem poderiam, entre tantos outros – mas sempre me senti o neto predileto, eu estava sempre por perto, era amoroso, gostava de brincar com os lóbulos molengas dela e assistir filmes de bang-bang e jogos de vôlei feminino com ele. Um dia meu avô me chamou no quarto. Supostamente minha avó não queria se levantar para tomar o último café do dia, e a lenga-lenga estava o deixando irritadiço. Então eu tive de dizer “ei, vô, a vó não caminha mais” e ele ficou meio confuso, as mãos na cintura, ofegando. Não deu outra, após alguns exames detalhados, o diagnóstico foi o tal do Mal de Alzheimer, coisa que só se dava com o avô dos vizinhos. Com mais alguns anos, minha avó deixou de se alimentar como um adulto, passou a se comunicar apenas com gemidos e sinais. E meu avô foi esquecendo quem eu era, quem era todo mundo. Só não esquecia da sua “Deusa”, como ele dizia, que estava sempre ali, na poltrona próxima à janela. Era um tanto irônico. Ela, com a memória de ferro intacta, vegetando. Ele, pra lá e pra cá nos corredores, perguntando às enfermeiras que horas o carro chegaria para levá-lo de volta para sua casa – onde ele já estava, de onde dificilmente saia. Na cabeça dele, estava, vai saber, na agência de Correios onde sempre trabalhou até uns 30 anos atrás. O tempo foi passando, ele deixou de assistir filmes de bang-bang, foi ficando cada dia mais esquecido, mas agressivo e impaciente, às vezes protagonizando umas cenas engraçadas, que a gente ria antes de chorar. Mas sempre zanzando. Corredor, cozinha, porta da frente sempre trancada, corredor, sala, banheiro, quarto de dormir. Como se estivesse num lugar nada residencial, trancado fora do mundo que levou décadas para construir. Então a vovó pegou uma pneumonia. Aí melhorou. Ficou ruim outra vez, os antibióticos não funcionavam. Até que me ligaram no meio da noite. “Ela piorou muito”, eu sabia, era apenas um eufemismo de quem não sabe como dar a notícia. Ao chegar no quarto, o rosto frio de quem não havia sofrido muito, os socorristas preenchendo formulários, legalizando o sono eterno. Ele deitado do lado, olhos fechados e o neuro-tique de mastigar as gengivas, sem nada desconfiar. Igual ele não discerniria, seria árduo explicar a diferença de vida e morte a um velhinho agredido por uma doença degenerativa avançada. Foi consenso não contar, às vezes a realidade apenas traz dores desnecessárias, felizes são os que vivem no mundo da lua. Pela manhã, enquanto ele contava piadas na sala, a funerária passou com o corpo. Isso foi há umas duas semanas, mais ou menos, e até hoje ele não perguntou por ela. Parece feliz, daquele jeito dele, dias bons, dias ruins, nenhum é igual. Não sei se foi o certo a fazer, mas foi o melhor. Há casos em que a correção não alivia o sofrimento de ninguém. Mas uma coisa me veio à cabeça, enquanto o padre fazia a extremunção divertindo o pessoal melhor do que faria Jerry Seinfeld, um verdadeiro showman. Será que ela não segurou a barra de viver entrevada esse tempo todo só para morrer quando justamente não o faria sofrer? Impossível saber, mas eu acho que sim, seria uma prova de amor contundente no meio dessa matilha de relações egoístas. E, apesar de não crer muito nessas coisas, também gosto de pensar que ela foi para um lugar melhor. Um lugar onde as pessoas lembram do seu nome."
Gabito Nunes.   (via inverbos)
"Acredite, vai acontecer qualquer dia, qualquer hora, alguém irá te enxergar, mesmo que você esteja sem maquiagem, suada, desarrumada, descabelada. O famoso homem da sua vida vai te enxergar. Confie em mim, ou em você, né."
Tati Bernardi (via sou-inseguro)
"Em alguns dias dói. A tristeza puxa os cabelos, arranha a cara, machuca dentro. E a gente não tem mais nada pra fazer a não ser dizer que tá tudo bem. Porque vai passar, passa. Só que antes de passar maltrata. E, entenda, a pior dor é aquela que ninguém vê."
Clarissa Corrêa.  (via inverbos)
"Uma pessoa é grande quando perdoa, quando compreende, quando se coloca no lugar do outro, quando age não de acordo com o que esperam dela, mas de acordo com o que espera de si mesma. Uma pessoa é pequena quando se deixa reger por comportamentos clichês."
Martha Medeiros.   (via k-alif)
"

TO-DO LIST FOR THE DEPRESSED

1). Wash your sheets, change your pillow case, wash your blankets. Wash away all the days you’ve spent withering in bed crying. Wash the tears off your pillowcase. Wash away the sad skin cells. Wash away the darkness.

2). Take a shower today. Brush your teeth. Make yourself a good breakfast and remind yourself that you deserve to eat. Dress to impress— yourself. Do whatever makes you feel put together, even if you’re not leaving the house.

3). Water your plants and remind yourself that you love them even though they’re not growing quickly. The same should go for yourself.

4). Feed your pets and remind yourself that there will be no one to love them if you commit suicide. Know that there is no one your cat purrs louder around and there is no one your dog’s face lights up for but you.

5). Return all the things you’ve been meaning to return. Return the clothes that make you feel fat. Return the clothes that make you feel ugly. Return your sick clothes. Throw them away if you need to. Let go if you need to. Cry if you need to and remember why you kept them for so long, but know that it is okay to let them go now. Return your cynicism to the cold boy who taught you it was better to love nothing. Make him feel how warm your heart is now without him.

6). Get new curtains. Close them. Close your eyes. Open them. Pull away the curtains. Let yourself reminded that there may be things in life you can’t control, but how much light enters your room is something you can control. The same can be said for your soul. You decide how much light you let in. You decide how many people you let in. You decide how many people you let help you. You decide how you love and who you love. Let that sink in for a moment.

7). Let yourself float in water. You only drown when you panic. Lie on your back and relax. Even on days when you can’t function, remind yourself that all you have to do is float. As long as you are breathing, you are alive.

"
5:42 p.m. (To-do list on days I can’t function)
"

TO-DO LIST FOR THE DEPRESSED

1). Wash your sheets, change your pillow case, wash your blankets. Wash away all the days you’ve spent withering in bed crying. Wash the tears off your pillowcase. Wash away the sad skin cells. Wash away the darkness.

2). Take a shower today. Brush your teeth. Make yourself a good breakfast and remind yourself that you deserve to eat. Dress to impress— yourself. Do whatever makes you feel put together, even if you’re not leaving the house.

3). Water your plants and remind yourself that you love them even though they’re not growing quickly. The same should go for yourself.

4). Feed your pets and remind yourself that there will be no one to love them if you commit suicide. Know that there is no one your cat purrs louder around and there is no one your dog’s face lights up for but you.

5). Return all the things you’ve been meaning to return. Return the clothes that make you feel fat. Return the clothes that make you feel ugly. Return your sick clothes. Throw them away if you need to. Let go if you need to. Cry if you need to and remember why you kept them for so long, but know that it is okay to let them go now. Return your cynicism to the cold boy who taught you it was better to love nothing. Make him feel how warm your heart is now without him.

6). Get new curtains. Close them. Close your eyes. Open them. Pull away the curtains. Let yourself reminded that there may be things in life you can’t control, but how much light enters your room is something you can control. The same can be said for your soul. You decide how much light you let in. You decide how many people you let in. You decide how many people you let help you. You decide how you love and who you love. Let that sink in for a moment.

7). Let yourself float in water. You only drown when you panic. Lie on your back and relax. Even on days when you can’t function, remind yourself that all you have to do is float. As long as you are breathing, you are alive.

"
5:42 p.m. (To-do list on days I can’t function)
"Nem sempre faço questão de usar a simpatia. Muitas vezes já me escondi atrás de arara de loja pra não cumprimentar alguém. Ou então caminhei mais rápido pra desviar de um conhecido. Sei lá, tem dias que não tô com vontade."
Clarissa Corrêa.  (via nobroke)
"Talvez o problema seja este, pra mim você é meu A, enquanto eu sou teu Z."
João Paulo Ferreira   (via distanciava)